FGM ENTREVISTA

 

Foto: Divulgação SERVAS

Sobre a entrevistada

Carolina Oliveira Pimentel é graduada em Jornalismo, pela Universidade Católica de Brasília (UCB), em Arquivologia, pela Universidade de Brasília (UnB), e tem MBA em Gestão Empresarial, pela Fundação Getúlio Vargas. Tem passagem por veículos de imprensa, órgãos públicos e agências de comunicação como assessora de comunicação. Desde janeiro de 2015, preside o Serviço Voluntário de Assistência Social – SERVAS, onde prioriza o trabalho integrado com diversos parceiros para promover a assistência social em Minas Gerais.

FGM – A gastronomia pode ser um agente de transformação social, tanto diretamente quanto por meio de políticas públicas. Como democratizar as oportunidades de desenvolvimento econômico e social proporcionadas pela gastronomia, de forma que elas alcancem também os segmentos vulneráveis da sociedade?

Carolina Oliveira –  A gastronomia é parte da identidade cultural de Minas Gerais e tem um forte potencial como atividade econômica capaz de gerar renda em todo lugar. Por isso, precisamos nos preparar para oferecer às pessoas em condição de vulnerabilidade social, que não possuem meios de bancar capacitação com recursos próprios, cursos profissionalizantes no campo da gastronomia. Além do ensino de técnicas usadas nas cozinhas, esse treinamento precisa preparar os alunos para o descarte correto do lixo e a reutilização de resíduos sólidos e o uso racional de água e energia.

FGM – Antes privilégio de poucos, a gastronomia ampliou sua dimensão conceitual ao longo do tempo, constituindo-se hoje em bandeira de diversos movimentos culturais e socioambientais. O Servas executa alguma ação na área da gastronomia social ou tem planos para desenvolver ações neste sentido? 

Foto: Divulgação SERVAS

Carolina Oliveira – No Servas, temos o programa Cozinha Inteligente, criado para oferecer a pessoas em situação de vulnerabilidade social a oportunidade de se capacitar como auxiliar de cozinha com especialização em gestão de resíduos. Acreditamos que, por meio de programas como esse, é possível viabilizar o ingresso dos alunos no mercado de trabalho, uma vez que a gastronomia ganha mais evidência a cada dia. O Cozinha Inteligente forma profissionais que recebem aulas de técnicas de auxiliar de cozinha e gastronomia, aproveitamento integral de alimentos e gestão de resíduos e meio ambiente. São 272 horas/aula, o equivalente a três meses de duração, com quatro módulos de aulas teóricas e práticas – Gestão de Resíduos e Meio Ambiente, Técnicas de Auxiliar de Cozinha e Gastronomia, Aproveitamento Integral de Alimentos e Empreendedorismo e Transição de Carreira. A campanha Alimenta Mais, que recolhe doação de alimentos e encaminha a entidades como abrigos e instituições de longa permanência para idosos também é uma iniciativa do Servas que envolve a gastronomia.

FGM – Segundo diretrizes da Lei de Segurança Alimentar e Nutricional e do Direito Humano à Alimentação Adequada, todo mundo tem direito a uma alimentação saudável, acessível, de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente. Entretanto, vivemos hoje em um mundo dividido entre a fome e a obesidade. O que pode ser feito para reduzir os altos números nos dois extremos?

Carolina Oliveira – O Brasil saiu do mapa da fome graças a programas sociais como o Bolsa Família e às ações de segurança alimentar desenvolvidas pelo governo brasileiro nos governos Lula e Dilma. Entre 2002 e 2014, o número de pessoas subalimentadas no país registrou redução de 82,1%. Trata-se da maior queda já registrada entre as seis nações mais populosas do mundo. Para que isso continue ocorrendo, é necessário aprofundar os investimentos sociais. Ao mesmo tempo, a economia brasileira e a oferta de empregos no Brasil precisam voltar a crescer.

Foto: O Tempo

Por outro lado, a obesidade é um problema que precisa ser enfrentado. Para isso, a sociedade precisa ser conscientizada tanto quanto à necessidade da prática de exercícios físicos como de uma alimentação mais saudável. Aqui em Minas, no início do ano passado, o governo do estado começou a levar academias ao ar livre para 330 municípios, investindo na melhoria da qualidade de vida da população.  Além disso, por meio da Emater e da Epamig, Minas apoia projetos de hortas comunitárias em escolas, presídios e até em avenidas. A ideia é elevar o valor nutricional dos alimentos consumidos em todo o estado, contribuindo para a redução da obesidade, melhoria da qualidade de vida, acesso aos alimentos e, ao mesmo tempo, estimular a economia local.

FGM – Minas foi o primeiro estado da federação a incluir a gastronomia no rol das políticas públicas. Em sua opinião, qual a importância disto?

Carolina Oliveira – Minas foi o primeiro estado a entender a gastronomia como setor estratégico para o desenvolvimento sustentável. Somos o maior produtor de café e de leite do Brasil, nossa produção de cachaça e, agora, também a de cerveja artesanal, são referências nacionais, isso sem falar da produção de queijos, doces e da comida típica mineira. Hoje, 24% dos turistas que visitam o estado indicam a gastronomia como a principal imagem que lhes vem à cabeça quando pensam em Minas Gerais. Bares e restaurantes têm a segunda melhor avaliação nas pesquisas sobre turismo em Minas e só perdem para a hospitalidade dos mineiros. Tudo isso mostra que esse é um setor estratégico para o desenvolvimento econômico e social de Minas e que essa importância precisa ser reconhecida. Uma forma de fazer isso é a elevação da gastronomia à categoria de política pública, que terá entre outras inciativas, a Casa da Gastronomia. Em pleno funcionamento, esse será um espaço para celebrar e promover a gastronomia mineira.

FGM – O Servas tornou-se membro da FGM recentemente. Quais as expectativas em relação a futuras parcerias? Que tipo de cooperação mútua pode advir entre estes dois trabalhos voluntários?

Carolina Oliveira – A Frente da Gastronomia Mineira reúne diferentes instituições públicas e privadas e profissionais envolvidos com a gastronomia. Em nossa gestão, passamos a fazer parte da FGM chamando atenção para as questões sociais que envolvem o segmento gastronômico. Exemplos disso são o projeto Cozinha Inteligente e o Programa Alimenta Mais, já citados aqui. Acreditamos que mais parcerias podem ser concretizadas entre as instituições que fazem parte da FGM e o Servas. Visto que o Servas é uma associação civil sem fins lucrativos, apostamos nelas para ampliar as ações sociais na gastronomia e continuar contribuindo para o debate emergente das questões sociais que envolvem toda sua cadeia produtiva.

FGM – Quais suas preferências em relação a pratos e produtos da culinária mineira?

Carolina Oliveira – Sou apaixonada pela culinária mineira. Pão de queijo, tropeiro, arroz com pequi e goiabada não podem faltar em casa.