Serra da Canastra: descobrindo os tesouros guardados no baú

Atrativos são um convite ao turismo de experiência

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Foto: Felipe Muniz

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Foto: Felipe Muniz

Quem quiser vivenciar de verdade  a Serra da Canastra, melhor esquecer os pacotes turísticos padronizados, destinados a agradar pessoas de todas as idades, gêneros e expectativas. Feche os olhos e se jogue na deliciosa aventura de entregar seus dias de folga a quem vai customizar uma programação todinha de acordo com seus interesses. Foi o que fizemos durante viagem exploratória a São Roque de Minas, na Expedição FGM Serra da Canastra. Com pouco tempo para visitar tantos atrativos, todo o roteiro foi montado por um guia local a partir da indicação da gastronomia como interesse principal. O resultado não poderia ter sido melhor. Visitantes deslumbrados e com a mala cheia de histórias para contar.

É num cenário belíssimo, coberto pela vegetação exuberante que resulta da fusão entre a Mata Atlântica e o Cerrado, que nasce  o “Rio da Integração Nacional”, o Velho Chico. Os moradores da Serra da Canastra, talvez em agradecimento pelo privilégio de serem guardiões de tanta beleza, oferecem ao visitante sua maior riqueza: a hospitalidade mineira. São relatos sobre a gente da Canastra e os frutos do seu trabalho que queremos compartilhar com o leitor.

A chegada à Serra da Canastra é uma experiência sinestésica. Cheiro de mato molhado, sinfonia de pássaros, paisagens que dispensam moldura e a primeira degustação do legítimo queijo Canastra artesanal – devidamente acompanhado por uma caneca de fumegante café coado – tudo junto e misturado, provocando uma sensação intensa e inebriante. Como todo fenômeno multissensorial, um estímulo alimenta o outro, e o conjunto deles provoca no visitante uma sensação de urgência para vivenciar tudo que o lugar tem a oferecer.

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Foto: jnfneves

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Foto: jnfneves

Urgência? Pressa? Velocidade? Reprogramando em 3, 2, 1… Os relógios da Canastra parecem trabalhar num ritmo bem mais lento que os dos grandes centros. São Roque de Minas é uma típica cidade mineira do interior. Lugar calmo, de clima ameno, procurado por quem admira as montanhas e aprecia o contato com o ar puro. Os bancos da pracinha da igreja simulam a diversidade de uma plataforma de rede social. Democraticamente, o espaço abriga ruidosos parceiros de truco e concentrados jogadores de damas; idosos fazendo a sesta e crianças pulando amarelinha; senhoras trocando um dedo de prosa e senhores atentos ao discurso do eloquente “homem da cobra”. A toda hora um sonoro e amistoso “tarrrrde” dirigido indistintamente a velhos conhecidos e a desconhecidos turistas, tal como curtidas aleatórias. Ali, tudo se sabe, tudo se comenta, num boca a boca eficiente de causar inveja às mídias digitais mais populares.

Este cenário da vida cotidiana do interior mostra como muitas vezes nos distanciamos da nossa própria cultura. Momento ideal para voltar três casas e recomeçar o jogo, ainda que pelo breve espaço de uma miniviagem de férias. Priorizar atividades para conhecer mais de um número menor de atrativos e, fundamentalmente, desfrutar cada nanossegundo da sofisticação que a simplicidade proporciona. Que nos perdoem os esnobes, mas é muito chique ser sábio, simples e humilde, como o povo da Canastra.

Contagiados pelo estilo slow living local, saímos em caminhada pelas ruas tranquilas do centro, observando e absorvendo cada detalhe. Chama atenção a quantidade de estabelecimentos comerciais – as tradicionais vendas  -, misto de armazém e lanchonete e paradas obrigatórias para um “pingado” com biscoito frito. Quitandas, verduras, queijos, cereais a granel e miudezas em geral convivem pacificamente em harmoniosa desordem. Paga-se em dinheiro ou anota-se o débito na caderneta. Cartão, aqui, só aquele enviado pelo correio no Natal.

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Cidinha, da Tamanduá Ecoturismo – Foto: jnfneves

De volta do passeio, fomos conhecer o trabalho da Tamanduá Ecoturismo, agência de turismo anexa à pousada onde nos hospedamos. Pioneira em serviços receptivos na Serra da Canastra, a Tamanduá incentiva e promove o ecoturismo desde 1998. A agência fica no mesmo espaço físico da Pousada Caminho da Serra e da Cafeteria Canastra Velha, num interessante modelo de parceria. Sorte do turista, que conta com diversos serviços no mesmo local, proporcionando rapidez e comodidade. Prosear com a Cidinha e saber um pouco mais sobre os atrativos da Canastra é aperitivo para a programação do dia seguinte.

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Sílvio, da Ecopousada Beira de Mato – Foto: Felipe Muniz

Nosso roteiro foi construído pelo Sílvio, da Ecopousada Beira de Mato. Sílvio é uma pessoa que traz em si todos os sonhos do mundo, como diria Pessoa. E, mais importante, corre atrás deles. Contagiado pelos encantos e recantos da Canastra, largou a vida atribulada da cidade grande para se instalar no sossego de um pé de serra. No ritual de passagem para a vida campesina, conta que queimou todos os ternos. Por certo não deve ter se arrependido. Seus olhos brilham ao falar das potencialidades do turismo de experiência. Com a inquietude de quem sabe que há muito a ser construído, cria e participa de arranjos locais que visam promover a Canastra como destino turístico.

Iniciamos nosso tour pela pousada do Sílvio, onde fomos recebidos pela Sílvia, dublê de esposa e sócia, além de xará. Aproveitamos para saber mais sobre a microcervejaria Beira de Mato, onde são fabricados dois estilos de cerveja gourmet com as águas da Serra da Canastra. O café da manhã mineiro ainda estava sobre o fogão a lenha.

Conhecemos nossos companheiros de passeio: um casal de Campinas – Anna e Fabrício – e seus dois filhos – Nícolas e Nathan. Se tivéssemos escolhido as companhias, não teríamos acertado tanto. Uma família de muita gentileza no trato. Modéstia às favas, parecem mineiros. O queijo derretido na frigideira e o café coado na hora parecia ter um ímã que nos impedia de pegar a estrada. Com dificuldade, saímos de lá com destino ao Parque Nacional da Serra da Canastra. No caminho, belas paisagens e a conversa animada de velhos novos amigos.

Nícolas, Fabrício, Nathan e Anna – Foto: acervo pessoal

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Cachoeira de Casca D’Anta – Foto: jnfneves

O parque e seu entorno sul formam um cenário de tirar o fôlego. O trajeto da Portaria 4 até a parte baixa da Cachoeira Casca D’Anta não é curto, mas compensado por um verdadeiro espetáculo visual. O frescor da vegetação abundante serpenteada pelo curso d’água também ajudam a tornar a caminhada acessível, mesmo para os que estão longe de ser atletas. Os tons de verde são seguramente mais numerosos do que os do Guia Pantone.  Árvores centenárias dão abrigo a um sem número de bromélias dos mais variados matizes, salpicando de cores a cena monocromática.  Na volta, uma salvadora bica de água  potável para matar a sede e revigorar as energias.

Bolo de côco da Dona Neusa – Foto: jnfneves

Forno e fornalha da Dona Neusa – Foto: jnfneves

Um pouco mais de estrada rural e chegamos à fazenda do Seu Osmar e da Dona Neusa. Sobreviventes do queijo artesanal, a dupla é séria candidata ao disputado título de “Casal Simpatia da Canastra”. O rosto do Seu Osmar, apesar de visivelmente marcado pelo sol e pelo tempo, carrega um sorriso tão franco e constante que nos instiga a conhecer sua história. Quebrado o gelo inicial, conseguimos entabular uma boa prosa, fotografar e até gravar um vídeo. Nascido e criado na Canastra, sua história se assemelha à de inúmeros produtores de queijo artesanal da região. Aprendeu a fazer queijo com o pai sendo esta, desde então, sua principal fonte de renda. Dona Neusa complementa os rendimentos do casal com a venda de ovos e doces. Por falar em Dona Neusa, Sílvio já havia avisado que a cozinha dela era muito limpa e arrumada. Nada perto do que pudemos constatar depois de muitos e injustificados “não repara a bagunça”, antes que nos fosse permitido o acesso. Café, queijo do Osmar e bolo de coco molhadinho arremataram a visita com chave de ouro.

A comilança matinal e o interesse por tantas riquezas gastronômicas fizeram com que nossos estômagos colaborassem, dando tempo para mais uma visita antes do almoço. Chegamos à casa da Tuta e do Eduardo no início da tarde e sem vestígios de fome. Ainda assim, impossível passar por um pé de goiaba e não estender a mão para a fruta. Algumas goiabas depois, fomos conhecer as conservas e os doces artesanais. Tudo muito lindo e deliciosamente caseiro. Devidamente abastecidos com goiabada, broto de bambu, jurubeba e pimenta biquinho, já estávamos nas despedidas quando o Eduardo nos ofereceu uma “cachacinha pra desentristecer”. Como não podíamos fazer desfeita, experimentamos a “marvada” com um naco de queijo. Resultado: mais itens no carrinho de compras.

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Restaurante Cozinha Original – Foto: jnfneves

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Restaurante Cozinha Original – Foto: jnfneves

Já passava das 15h00 quando chegamos ao Restaurante Cozinha Original, da chef Joanne Ribas. Nascida no Vale do Aço, criada na Zona Metalúrgica e adotada pela Canastra, ela é outro personagem local que deu um cavalo de pau na vida. Pode não ter queimado ternos como o Sílvio mas, seduzida pela vida no campo, também virou as costas para a agitação de um grande centro, assentando praça no distrito de São José do Barreira. Sorte do turista outra vez. Tudo no restaurante é encantadoramente rústico e charmoso, em perfeita harmonia com a paisagem deslumbrante da Serra. Com localização estratégica entre o distrito e a portaria do parque, é parada obrigatória para visitantes famintos. Mas o forte da casa está mesmo nas mãos mágicas de Joanne. Comida genuinamente mineira, simples, descomplicada, saborosa e cheirosa, incólume ao ataque dos raios gourmetizadores. Aqui o pecado da gula pode ser praticado impunemente. A misericórdia divina, com certeza, releva os inevitáveis excessos.

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Foto: jnfneves

Sem dúvida, um dos encantos da roça é o cair da tarde. As luzes vão desaparecendo preguiçosamente no horizonte enquanto os pássaros, em coro, cantam para homenagear o dia que se vai. Adicione-se a este cenário uma rotunda lua cheia e um céu imaculadamente limpo. Este era o panorama visto da varanda do chalé quando retornamos à pousada. Uma rede, um vinho, mais queijo e uma perfeita interação com o momento. Não é preciso mais nada para se render ao magnetismo da Canastra. Já era noite quando saímos para conhecer o Zagaia Bar Restaurante e Pizzaria. A cidade oferece poucas opções de restaurantes. Petiscos mineiros foram o cardápio da alimentação noturna.

Pausa para explicação. Zagaia era o nome de uma lança de madeira com ponta de ferro, usada para caçar onças. Reza a lenda que uma fazenda perto do arraial de Desemboque – pouso de comerciantes que levavam seus rebanhos para serem vendidos em Sacramento – era cercada de mistério. Os viajantes pousavam ali na ida e desapareciam inexplicavelmente durante a viagem de volta. Um dia, uma escrava da fazenda apaixonou-se por um viajante. Temendo pela vida do amado, contou a ele toda a trama. O dono da fazenda mantinha uma zagaia amarrada sobre a cama dos comerciantes. Quando percebia que haviam dormido, soltava a corda e a lança caía, matando o hóspede. O dono da fazenda ficava com todo o dinheiro da venda do gado e enterrava os corpos para não deixar vestígios. Esta história e muitas outras curiosidades locais são contadas no delicioso livro Ao Pé da Serra – Contos e Causos da Canastra, da escritora Maria Mineira.

Fim do dia e a nítida impressão de que aqui ele tem mais de 24 horas. De volta à pousada, dormimos ao som dos silêncios expressivos da Canastra.

No dia seguinte, depois de um café da manhã para ser lembrado por várias encarnações, fomos conhecer o processo de fabricação do queijo Capim Canastra, do produtor Guilherme Ferreira. Integrante do mesmo grupo de neo-rurais do qual fazem parte o Silvio e a Joanne, Guilherme também fez um movimento até pouco tempo considerado contramão: o da cidade ao campo. A diferença é que, com ele, a tradição queijeira é herança familiar. Foi só ouvir a voz do DNA. Recém-formado em Medicina Veterinária, mudou-se para São Roque, assumiu a fazenda da família e começou a fazer queijo. Incorporando os conhecimentos técnicos, o vigor da juventude e a inquietude dos empreendedores, Guilherme já extrapolou em muito as atividades do ofício queijeiro. Hoje é também parceiro importante na estruturação do turismo gastronômico local. Com sua participação, juntamente com outros atores cadeia produtiva local, a Canastra vem se posicionando como destino turístico de excelência. Já muito reconhecida pelas belezas naturais, o portfólio de seus atrativos está reforçado por diversas vivências gastronômicas, caracterizando a desejada relação ganha-ganha entre turistas e comunidade local.

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Paulo Henrique de Matos Almeida – Foto: jnfneves

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Foto: jnfneves

Prova de que sorte é a soma de muito esforço, trabalho e dedicação, há dois anos, um produtor que fazia curso de afinação na França inscreveu o Capim Canastra para participar de um dos principais concursos de queijo do mundo – o Mondial Du Fromage de Tours. No teste às cegas, o queijo mineiro abocanhou nada menos que o 2º lugar de uma das categorias mais concorridas do certame. Jovem, competente e bem-sucedido, o sucesso de Guilherme tornou-se um incentivo para os produtores da região. Ciente do papel que representa, Guilherme contribui sobremaneira para a divulgação da Canastra e seus produtos junto aos principais mercados brasileiros.

Durante a visita, tivemos a oportunidade de conversar com Paulo Henrique de Matos Almeida – o Paulinho -, produtor de queijo artesanal e Gerente Executivo da Associação dos Produtores do Queijo Canastra – Aprocan. Outro entusiasta do trabalho em rede desenvolvido na região, emociona-se ao destacar o resgate da autoestima dos produtores como uma das maiores conquistas da entidade. A mudança de postura na relação com as instâncias regulatórias – antes hierarquizada e subserviente, privilegiando agora a horizontalidade e a parceria – também pode ser creditada à atuação firme com que a Aprocan defende os interesses dos associados.

Finalizamos a visita com uma degustação do café Flor da Canastra, coado na hora por ninguém menos do que o próprio produtor, José Henrique Monteiro. Mais um refugiado da selva urbana, Zé Henrique largou o frenético mercado de capitais paulistano para mergulhar, junto com sua esposa Cristina, na tranquilidade bucólica da Serra. O casal compartilha da filosofia que parece ser unânime entre os produtores artesanais: o fruto do trabalho incorpora a identidade do sujeito. Só isso é capaz de  justificar a sintonia unânime dos artesãos da Canastra com aquilo que os qualifica. Reflexões filosóficas e sociológicas que demandam muitas outras xícaras do inesquecível café especial, perfumado, forte e “margoso” daquele dia.

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João Carlos Leite – Foto: jnfneves

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Zé Branco e Ronilda – Foto: jnfneves

Da Estância Capim Canastra para a Fazenda Agro Serra. João Carlos Leite – um predestinado que carrega sua ocupação no nome e no sangue – é da quinta geração de produtores de queijo da família. Agrônomo por formação e empreendedor social por vocação, levou o cooperativismo para a região da Canastra, foi pioneiro na criação da cooperativa de crédito da região e fundador de uma escola modelo para jovens em São Roque de Minas. A tarefa de ordenha e produção dos seus disputados queijos foi muito bem entregue à dupla Zé Branco e Ronilda, para que ele pudesse se dedicar mais às múltiplas funções de presidente da Associação dos Produtores do Queijo Canastra – Aprocan. Visionário, está sempre promovendo inovações nos processos de estruturação e gestão da produção do queijo, sem esquecer a etapa que faz com que o produto chegue nas mãos do consumidor e tenha sua qualidade reconhecida: a comercialização. Na cidade, nos disseram que Joãozinho fez tanto por São Roque de Minas que é quase tão respeitado quanto o prefeito.

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Helenice – Foto: jnfneves

Depois de uma verdadeira aula de degustação ministrada pelo simpático Joãozinho, partimos rumo ao Sítio Nossa Senhora Aparecida, de outro produtor predestinado: Onésio Leite. Como ele estava em Medeiros neste dia, fomos recebidos por sua esposa, Helenice, e sua filha, Adriana – corresponsáveis pela produção do Canastra do Onésimo, cuja fama há muito ultrapassou as montanhas de Minas. Depois do ritual de boas-vindas em torno de uma bem fornida mesa de café, Adriana nos mostrou, orgulhosa, a nova queijaria, devidamente adaptada às exigências sanitárias. A adequação possibilitou o tão almejado registro no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-Poa), o que na prática significa, além do aumento do valor agregado do produto, sua habilitação para comercialização em todas as unidades da federação. Mas nem só de queijo vive o Sítio Nossa Senhora Aparecida. A mangada e a bananada produzidas por Dona Helenice podem facilmente ser inseridas no rol dos néctares dos deuses – privilégio dos deuses, semideuses e heróis do Olimpo. E de nós, pobres mortais, que rapidamente os incluímos no carrinho de compras.

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Foto: jnfneves

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Lúcia – Foto: jnfneves

Como profetizou Coleman, na canção imortalizada por Sinatra e Count Basie, o melhor ainda estava por vir. Última parada da Expedição FGM na Canastra: Sítio Bela Vista, do Ivair e da Lúcia. Junte tudo que você já ouvir falar de hospitalidade mineira, de companheirismo, de simplicidade e humildade, de amor ao que faz e de reversão nos xeques mates que a vida dá. Ainda estará longe do que a história de resistência deste casal representa para a gastronomia mineira. Entre risos e lágrimas, conhecemos as dores e as delícias de quem – não importa quantas rasteiras o destino aplique – renasce fortalecido para cumprir o projeto de vida de dois corações sonhadores. A narrativa textual jamais conseguirá transmitir, com detalhes, o que vivenciamos naquela tarde. Mesmo descontextualizado no tempo e no espaço, o depoimento dos protagonistas reproduz muito melhor a emoção daquele momento. Lá, experimentamos queijos capazes de encher de orgulho qualquer cidadão francês ou suíço. Mas, conforme providencialmente estampado na camiseta da Lúcia: “Nem França, nem Suíça. Aqui é Canastra”. Queijo com história como a deles, só aqui mesmo. A canela-preta que pode ser vista da varanda da casa e bem defronte à nova queijaria, foi plantada no sítio para atender o pedido das filhas. Hoje a árvore tornou-se símbolo do Queijo do Ivair, identificação presente em  sua logomarca. Espécie da flora brasileira ameaçada de extinção da Mata Atlântica, a canela-preta, madeira de lei que leva 300 anos para atingir um metro de diâmetro, precisa ser preservada. Pessoas como Ivair e Lúcia também. Árvore e bicho-gente, flora e fauna de um mesmo ecossistema, riqueza da Canastra, de Minas e do planeta.

Ao encerrar nossa jornada, em meio a um sem-número de peculiaridades locais, queremos registrar a que mais se destacou. Exemplos de casais que dividem sonhos e constroem projetos juntos não é propriamente uma novidade, embora raros em um mundo cada vez mais individualizado. O que nos pareceu uma singularidade da Canastra foi a essência destas parcerias, tanto entre casais novos quanto antigos. As parcerias das quais falamos não se resumem ao compartilhamento de interesses afetivos e comerciais, embora também o sejam. Talvez a configuração mais próxima fosse a de uma relação de interdependência, na qual existe a percepção de que ambas as partes são responsáveis, na mesma medida, pelos sucessos e fracassos do projeto de vida que assumiram. Sem as partes, não há projeto e, sem o projeto, o conceito de parte não tem sentido.

 

OS CASAIS DA CANASTRA

 

Tuta e Eduardo – Foto: jnfneves

Helenice e Onésio – Foto: jnfneves

Neusa e Osmar – Foto: jnfneves

 

Cristina e José Henrique – Foto: acervo pessoal

Sílvia e Sílvio – Foto: Felipe Muniz

Lúcia e Ivair – Foto: jnfneves

Os correspondentes FGM viajaram por conta própria, arcando com todos os custos da Expedição Serra da Canastra.

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